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Ao esquecer do passado, SuperM mira em um futuro duvidoso

Camila Monteiro

04/10/2019 10h08

We jumping, we popping we…

jopping.

Agora que eu tirei esse grito entalado no peito eu posso prosseguir com esse post que, confesso, está me olhando nos rascunhos faz algumas semanas, mais precisamente desde o dia que saiu o rumor de que a SM lançaria um supergrupo. Eu pensei em diversas formas de como abordar o que a SuperM representa, a ideia, o conceito, a forma como foi apresentada ao público e decidi esperar o álbum sair para tentar fazer uma síntese de tudo, porém, verdade seja dita, sigo achando um assunto mais delicado e complicado do que parece. Estamos diante da reunião dos idols mais populares da SM, a maior empresa de kpop existente, e considero impossível – e equivocado – não levar em consideração o passado dos envolvidos e do que representa essa estratégia clara de "conquistar a América" apresentando o futuro do kpop através de um conceito Marvel (o grupo inclusive, fará parceria com a própria). Já se estabelece logo de cara a maior ironia da SuperM: ser um grupo do futuro que só existe por causa do legado dos seus idols em seus respectivos grupos (SHINee, EXO e NCT). Achei melhor separar em tópicos tudo o que eu queria desenvolver desse assunto pois estamos falando de SM, reunião de diversos idols de nichos diversos e fandoms convergentes.

Quem são?

O grupo é formado por Baekhyun e Kai (EXO), Taemin (SHINee), Mark e Taeyong (NCT 127) e Ten e Lucas (WayV).

EXO

Baekhyun e Kai (reprodução/twitter)

A ala EXO do grupo conta com Byun Baekhyun e Kim Jongin (Kai), ambos grandes pilares do grupo mais bem sucedido da SM e um dos principais do kpop. Baekhyun é A VOZ, assim mesmo, em negrito e caixa alta (guarde isso pois será informação importante para a review do disco). Ele é vocalista principal em um grupo conhecido por possuir grandes vozes (Kyungsoo e Jongdae que o digam) e recentemente lançou seu primeiro disco solo, City Lights, que eu já divulguei diversas vezes aqui no blog (veja aqui a review), e onde podemos entender perfeitamente o porquê de Baekhyun ser tão popular e vender tanto disco (sozinho ele vendeu mais de 500 mil cópias, algo que nem grupos populares conseguem). Ajuda, claro, o fato de ele também ser extremamente carismático. Jongin, mais conhecido como Kai, é o centro e rosto da EXO. Sim, você provavelmente lembra dele sem camisa e sensualizando, assim como 90% das pessoas – e muita fã fica incomodada com isso – porém esse é o branding do Kai, ele é a FACE do grupo e eu não vejo mal nenhum nisso, até porque ele dança muito, canta bem, sabe performar como poucos e é responsável por uma série de momentos icônicos da EXO nos palcos. Tanto Baekhyun quanto Jongin são figuras muito conhecidas no kpop e possuem uma legião de fãs enorme, as exol-s.

SHINEE

Taemin em Want (reprodução/twitter)

LEE TAEMIN LEE TAEMIN LEE TAEMIN. Eu poderia ficar entoando tal qual um mantra o nome de Taemin por aqui, pois ele é o motivo #1 de eu acompanhar esse grupo e ao mesmo tempo ter dezenas de ressalvas em relação à existência do mesmo. Taemin é o mais experiente do grupo – apesar de não ser o mais velho, pois ele nasceu em 93 e Baekhyun em 92 – e já é um idol profissional há mais de uma década. Nas costas ele carrega um legado enorme: ser o maknae de um dos grupos que impulsionou toda uma geração do kpop, uma carreira solo de grande sucesso de público e principalmente crítica, ser um dos melhores dançarinos do pop e facilmente um dos melhores performers que a indústria possui atualmente. Lee Taemin é idol dos idols e uma referência para quem está começando.

NCT 127 e WayV

Se para muita gente é difícil entender o conceito da NCT, fique tranquilo, pois nem a SM tem plena compreensão do que Neo Culture Technology é; a única certeza que temos é que Lee Taeyong estará em primeiro plano, com zoom no seu belo rosto, esteja ele cantando ou não. 21, 18, 9, Dream, U, 127, a NCT é praticamente um festival e justamente quando o grupo estava se encontrando, a SuperM aconteceu, reunindo 4 (ou 2?) dos seus idols mais populares. Ten e Lucas sempre tiveram uma popularidade enorme apesar de viverem mais no porão da SM do que nos holofotes. Ambos fizeram parte da NCT U e migraram para a WayV, que a princípio seria a unit chinesa da NCT, mas que atualmente aparenta ter sido desvinculada do grupo completamente. A SM não parece fazer questão alguma de explicar o que acontece ali, portanto estamos todos juntos nesse pequeno caos que envolve Coréia, China, cpop, políticas internas confusas e a eterna dificuldade que a empresa tem em lidar com idols chineses. Aqui, inclusive, temos um combo Torre de Babel: Taeyong é coreano, Mark canadense, Ten é tailandês e Lucas chinês. E tirando Ten, que é um bom vocalista e um grande dançarino, Mark, Taeyong e Lucas possuem uma importância ímpar na empresa pois a SM nunca foi conhecida por ter grandes rappers. Há controvérsias? Sim, muitas, mas a verdade é que historicamente o branding da SM é a voz e a dança, e o rap foi sempre segundo plano. Os tempos mudaram, BIG BANG, 2NE1 e BTS aconteceram e o rap deixou de ser um mero conector das músicas e passou a ser atração principal, com rappers de verdade escrevendo seus versos, produzido seus próprios álbuns e modificando a indústria. Não a toa a NCT concentra a melhor rap line da empresa, que é amplamente carregada por Mark, o melhor rapper da NCT e, consequentemente, da SM.

Eu vejo o futuro repetir o passado…

imagem com divulgação das datas da tour americana da SuperM (reprodução/SM)

Tenho muita dificuldade em entender a escolha da frase 'WE ARE THE FUTURE' não apenas como a tag line principal do grupo, mas também como nome da turnê que eles farão pelos Estados Unidos. O grupo, que mal debutou, se apresentará em grandes casas de shows pelo país, incluindo Madison Square Garden em Nova Iorque. Divulgada antes mesmo de o disco sair, fica claro que tanto SM quanto Capitol Records (gravadora que está bancando essa migração do grupo para a América) contam com os fandoms existentes dos idols para venderem esses ingressos. E imagino que seja exatamente isso que ocorrerá. Taemin, Baekhyun e Kai nunca tiveram grande divulgação fora da Coréia apesar do sucesso imenso que sempre fizeram em seus respectivos grupos e individualmente, portanto os fãs deles certamente investirão no futuro em prol do passado. A ideia de ver Move ao vivo, uma versão nova de 7th sense, agora com Taemin e Kai, Baekhyun cantando UN Village com Mark, entre tantas outras possibilidades, é o que agrega valor e gera interesse na SuperM. Assim, seguirei no meu drama pessoal em achar WE ARE THE FUTURE quase ofensivo para se referir aos idols que tanto fizeram pelo kpop e são absurdamente populares na Ásia. Soa quase como um apagamento interno, como se eles quisessem começar do zero e fingir que tudo ali é novo, quando claramente tudo ali só existe por conta do êxito decorrente de anos de trabalho duro dos idols envolvidos. Estamos em 2019, as pessoas têm acesso a tudo que eles já fizeram. Nesse momento estou escrevendo ao som de Lucifer, o que significa (auge da SHINee, não tente apagar a história de Lee Taemin e respeite legados) e reitera o meu desconforto quanto ao marketing do grupo.

FINISH HIM

Agora chegamos na parte mais concreta da SuperM, que fez toda sua divulgação em cima das individualidades dos membros. A narrativa é bem ABC de heróis e vilões, quase como se eles tivessem nos convencendo de que eles são a melhor escolha numa possível batalha do Mortal Kombat. Cada membro teve um vídeo individual, com foco em corpo (dança), voz (rap) e postura (visual) e todos os caminhos levam ao big boss Goro Taemin, figura onipresente e conector de todos os vídeos. Pelo fato da própria EXO ter conceitos trabalhados em cima de super poderes e do último single da NCT ter sido Superhuman, já podemos estabelecer que a única constante que temos até aqui é o termo Super. No vídeo abaixo, o último divulgado antes de Jopping sair, podemos ver que a transição entre as danças do Ten, Taemin e Kai são um híbrido entre batalhas de video game e comercial de perfume importado. Porém relevamos – mais uma vez – os percalços em prol do resultado final que é ver os melhores dançarinos da SM em ação. Ten escrevendo seu nome com o corpo ao som de TEN ON THE FLOOR, Taemin mostrando porque ele é considerado O dançarino do kpop e Kai deixando claro que ele não é apenas um rosto e corpo bonito mas principalmente um exímio performer.

JUMPING, POPPING… JOPPING

Se eu estava levemente descrente no que SuperM iria apresentar, muito pela forma como Lee Sooman vendeu o grupo na coletiva de imprensa, a minha maior preocupação se concentrava no próprio conceito de supergrupo. Isso atrelado ao discurso megalomaníaco futurista, o fato de a Marvel (!!!) estar envolvida – ainda não sabemos como, mas certamente Sooman e toda Capital Records não vão nos deixar esquecer desse detalhe – e de os membros envolvidos representarem uma grande parte do fandom da empresa, criou-se  uma montanha de expectativas praticamente impossível de ser alcançada. Parece um erro básico pois o grupo naturalmente seria hypado por possuir justamente os membros mais populares da SM. Colocar toda uma carga em cima deles, de ser "a nova cara do kpop", "o próximo grande grupo", os heróis do kpop, não é apenas uma ideia ruim como também borderline ridícula. Essas pessoas têm carreiras e fandoms enormes, elas literalmente lotam arenas pelo mundo, portanto ao reunir todos eles e vender o megazord como revolucionário, o mínimo que esperamos é… revolução.

E bem…

Tudo que eu mais temia infelizmente aconteceu. A SuperM não é nada revolucionária e nem precisaria ser se não tivesse sido vendida como uma espécie de nova fase do kpop, agora para os olhos do ocidental médio. Os erros se somam na velocidade da luz e ao som de Jopping, provavelmente um dos piores lead singles que ouvi recentemente no kpop. A música é uma série de barulhos desconexos, com uma produção uns 3 tons mais pesada do que deveria, uma letra risível e um refrão que simplesmente não pega. É como se os piores singles da NCT 127, Regular e Simon Says, tivessem se reunido agora numa versão ainda mais pasteurizada, numa estratégia clara de se adequar as rádios americanas, foco principal da Capitol na divulgação do grupo. É até difícil para mim ter que admitir que nem Taemin consegue se salvar nessa música. Os poucos lampejos de sucesso são por conta dos vocais de Baekhyun, que de forma geral salvou não somente Jopping mas o disco inteiro, de ser um completo fiasco. Isso que nem adentrei a parte visual do MV, que é ainda mais over que a musical – me lembrou por vezes Eclipse da GOT7, que eu também não gostei – e ao tentar demais acaba pecando pelo excesso. Eu poderia dissertar por muitos parágrafos o quão ofensivo e desnecessário eu considero a utilização de um tanque de guerra numa narrativa que não faz absolutamente nenhum sentido e só alimenta estigmas e preconceitos já estabelecidos, mas deixarei isso para outra ocasião.

O restante do disco não é muito promissor, com I can't stand the rain e Super Car concorrendo a piores músicas do disco junto com Jopping. Nenhuma dessas músicas sequer seria B-Side dos discos da EXO, SHINee e até NCT 127, onde claramente elas possuem mais similaridades. Aliás, essa sensação de que o disco foi composto por músicas que não foram utilizadas pela NCT é forte do início ao fim. Escutei o disco três vezes, espaçadamente, para poder refletir sobre onde eu o encaixaria na discografia dos idols em questão e o Universo NCT é a comparação mais adequada. No Manners é, sem dúvida, a melhor música do disco e o caminho que o grupo deveria ter seguido. Lembra levemente The 7th sense, uma das melhores músicas da NCT U, tem produção e arranjos bem mais limpos e dão espaço ao Ten – que até agora eu nem havia lembrado que estava no disco – e Taemin mostrarem seus talentos vocais que até então haviam sido playground do Baekhyun, que não está nessa música (o que achei bom pois deu espaço pra Tenmin).

Outro ponto que me incomodou do álbum foi a má utilização do Mark. Já falei inúmeras vezes aqui sobre o fato de ele ser o melhor rapper da SM e até então ele sempre foi utilizado até demais pela empresa. Infelizmente aqui, onde ele poderia brilhar e mostrar o seu melhor ele foi engolido por produções equivocadas, letras ruins e músicas que simplesmente não são boas. E sim, eu também me questiono até agora por onde andam Kai e Lucas.

Ao finalizar minha terceira audição do disco, senti um gosto ruim ao perceber que a SuperM nada mais é do que uma metáfora para a folha de pagamento da SM: Baekhyun segurando no gogó os poucos momentos bons do álbum, assim como EXO e a carreira solo dele, cujo sucesso é maior que todo restante da empresa; Taemin mostrando a que veio da forma que dá, trabalhando com o conteúdo possível e se virando a base da experiência e talento que ele possui e a NCT incapaz de decolar, dessa vez engolida por uma produção saturada, que não apenas deixa a desejar musicalmente, como não reflete o que esses idols são nos seus respectivos grupos.

Ninguém precisa reinventar o kpop, muito menos idols consagrados com anos de experiência, sucessos e fandoms estabelecidos nas costas. Todo mundo ficaria feliz ao ver Taemin, Ten e Kai dançando juntos, Baekhyun cantando um verso inteiro sem barulhos desconexos de fundo e Mark, Taeyong e Lucas podendo mostrar o talento da nova geração de rappers da empresa. Não foi dessa vez que SuperM revolucionou o kpop. De repente isso aconteça quando Lee Sooman perceber que para ser o futuro é preciso respeitar e entender o passado.

 

Sobre a autora

Camila Monteiro é jornalista e estudante de doutorado em música, mídia e fandoms. Ama cultura pop e é muito fã de Bangtan. Sua vida se divide em antes e depois que ela viu Park Jimin na sua frente.

Sobre o blog

Nesse espaço discutiremos o Universo Kpopper: fandoms, bandas, debuts, disbands, MVs, álbuns, tours, coreografias, Coréia e tudo que o K-Pop nos oferece. Entre visuals, rappers e vocalistas, ultimates e bias wrecker estabelecido(a)s, vamos refletir sobre as diferentes gerações do pop coreano, a influência na moda, beleza, cultura e como o K-pop muda a vida das pessoas.

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