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I'm so sick of this fake love: BTS fica de fora das indicações ao Grammy

Camila Monteiro

20/11/2019 16h16

Hoje (20) saíram as indicações ao Grammy, que na verdade haviam vazado ontem após um erro do site oficial que atualizou as páginas dos artistas com os números de indicações já com as desse ano, portanto, depois do erro do estagiário eu já estava preparada para esnobada que a premiação daria a BTS. A sucessão de modificações que as grandes premiações vêm fazendo já haviam dado sinais suficientes que a indústria simplesmente não tem interesse nenhum em reconhecer os feitos de Bangtan, a não ser é claro, que seja em categorias que envolvam engajamento e redes sociais. Antes do Grammy, houve a polêmica com o VMA (escrevi sobre ela aqui) que criou uma categoria especificamente para o kpop, tirando assim o grupo da disputa dos prêmios mais importantes da noite. O mesmo ocorreu com as recentes mudanças do BRITs, um dos maiores prêmios de música da Inglaterra, que resolveu "focar nos britânicos" e simplesmente extinguiu a categoria melhor grupo internacional, justo no ano em que Bangtan esgotou Wembley por duas noites (cerca de 90 mil pessoas em cada dia). Essa sucessão de "coincidências" negativas fazem a gente pensar até que ponto a indústria vai seguir fazendo gatekeeeping e apagamento de algo tão grande como o sucesso e a força de BTS.

BTS no Grammy 2019 (Steve Granitz/WireImage/Getty Images)

Um dos maiores estranhamentos em relação ao Grammy foi o fato de eles terem sido convidados para apresentarem um prêmio, tirado fotos oficiais que só são feitas com vencedores, convidados para fazerem parte dos artistas votantes, participado de entrevista longa e cedido os ternos que eles utilizaram na premiação, para ficarem expostos no Museu do Grammy, que reúne outfits, instrumentos e fotografias de ícones da música e vencedores da premiação. Apesar de todo esse envolvimento com o grupo, a utilização deles para clout – pois as Armys geram um número exorbitante de engajamento- é notória.

Com Map of The Soul: Persona, disco lançado em abril desse ano, BTS vendeu mais de 4 milhões de cópias no mundo todo, sendo mais de 600k só nos Estados Unidos. Nenhum outro artista conseguiu esse feito em 2019. Além disso o grupo bateu o recorde de visualizações no youtube em 24 horas, com Boy With Luv conseguindo mais de 74 milhões de visualizações. A turnê Speak Yourself, primeira deles feita apenas em estádios pelo mundo, arrecadou mais de 117 milhões de dólares, se igualando a nomes como Elton John e Paul McCartney. Isso tudo cantando majoritariamente em coreano, ou seja, o impacto é ainda maior e mais significativo. Apesar de todos esses feitos, o grupo não levou nenhuma indicação em 2019, um ano em que eles dominaram diversos setores da indústria (discos, tour, bonecos, carros, games).

Nesse momento pensamos, o que falta para eles serem reconhecidos? O que é preciso para que isso mude? A resposta, infelizmente é simples e doída: nada. Não falta absolutamente nada e fãs não devem se culpar ou tentar fazer mais do que estão fazendo. Infelizmente a indústria é extremamente xenofóbica e racista. Até pouco tempo os próprios artistas negros americanos eram reduzidos a categorias urban – fãs de Beyoncé e Kendrick Lamar sabem do que estou falando – e seguem sendo, majoritariamente, esquecidos em prol de gente que teve muito menos impacto na indústria, mas é branco. O fato de BTS ser coreano e cantar em coreano ao invés de ser exaltado pela disseminação da cultura de uma língua e cultura completamente diversas, acaba sendo mais um obstáculo para o grupo. Bangtan desafia todas as certezas que a indústria tinha. As pessoas não entendem o tamanho do sucesso deles, como um grupo sul coreano que começou de baixo conseguiu conquistar tanto. Isso atrelado ao preconceito com kpop, a "maquiavélica" fábrica de idols, a estética que eles possuem e o fato de serem uma boyband, reúnem uma série de características que as pessoas, em geral, depositam todo seu preconceito. É febre, moda, coisa de adolescente, música ruim, são todos iguais, são muitos integrantes, ano que vem ninguém lembra deles; eu poderia ficar aqui listando todos os comentários que se repetem ad nauseam. Esperar que uma indústria que se refere ao kpop na maioria das vezes como alívio cômico e que confunde membros de grupos completamente diferentes, é perda de tempo.

BTS em ensaio para a revista Paper e com estética 90s teenage dream da Lisa Frank

O mais difícil de tudo isso é perceber que BTS possui uma carreira marcada por boicotes. Na Coréia, por terem vindo de uma empresa pequena, eles eram ignorados e muitas vezes humilhados, até mesmo em programas de tv. Com o tempo, e o sucesso estrondoso não houve mais como esconder o impacto que o grupo teve na vida de milhões de pessoas mundo afora. As armys foram e seguem sendo essenciais para o fenômeno histórico que BTS se tornou, pois elas deram e seguem dando voz ao grupo, mas a mídia e a indústria precisam entender que essa enorme comunidade de pessoas dispostas a viajarem o mundo, comprarem dezenas de discos, votarem em premiações e dominarem redes sociais, só existe por causa da música e da mensagem. A combinação do talento como letristas, produtores, performers e de um fandom extremamente dedicado e diverso é a chave do sucesso de Bangtan, e isso não é feito a base de grito, desespero, passos decorados com perfeição como a maioria da mídia insiste em reduzir. Fangirls são sempre diminuídas e tratadas com desprezo pelos seus gostos, no entanto são elas as grandes responsáveis por descobrirem talentos em suas fases iniciais. O conhecimento, fidelidade e dedicação das fãs mulheres tornaram os Beatles um dos maiores grupos de todos os tempos. E hoje os fãs dos Beatles se revoltam em seção de comentários não aceitando fãs adolescentes de outras boybands. Seria engraçado se não fosse ridículo. De qualquer forma, fangirls são trendsetters apesar de continuamente serem taxadas de bobas e fúteis.

BTS no entanto abraça seu fandom como poucos artistas e isso é percebido pelo nível de engajamento que o grupo tem por onde eles passam. Seja a ampla dominação no twitter, recordes quebrados em redes sociais que eles nem usam como o instagram, e o próprio TikTok, que eles criaram, bateram recorde e nunca mais voltaram, até produtos que esgotam porque os membros falaram sobre ou usaram (jamais esquecerei que Jungkook fez o amaciante Downy esgotar. Sim, um amaciante). Além disso existe uma influência muito maior, com livros, músicas de artistas independentes, e claro, na letra das próprias músicas que o grupo criou nesses mais de seis anos de existência. Isso é BTS e não a toa o fandom colocou nos trending topics – está em #2 lugar agora nos trendings mundiais – a hashtag #ThisIsBTS, em apoio ao grupo, que apesar de não ter sido indicado ao Grammy, tem seus discos todos no top 100 novamente pois as fãs descontam suas frustrações em forma de discos vendidos e streaming em músicas do catálogo do grupo.

Com a mídia sempre aproveitando tuítes foras de contexto para retratar as fãs como loucas e infantis, a frase que Park Jimin utilizou em entrevista recente – e excelente – para a revista Paper nunca fez tanto sentido: O silêncio é ouro. Não perca seu tempo.

Sobre a autora

Camila Monteiro é jornalista e estudante de doutorado em música, mídia e fandoms. Ama cultura pop e é muito fã de Bangtan. Sua vida se divide em antes e depois que ela viu Park Jimin na sua frente.

Sobre o blog

Nesse espaço discutiremos o Universo Kpopper: fandoms, bandas, debuts, disbands, MVs, álbuns, tours, coreografias, Coréia e tudo que o K-Pop nos oferece. Entre visuals, rappers e vocalistas, ultimates e bias wrecker estabelecido(a)s, vamos refletir sobre as diferentes gerações do pop coreano, a influência na moda, beleza, cultura e como o K-pop muda a vida das pessoas.

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