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Brexit means Brexit: BRITs ignora grupos internacionais e Simon cria UKPOP

Camila Monteiro

07/11/2019 10h30

Simon Cowell conseguiu algo que parecia impossível: reunir todos os fandoms de grupos coreanos em um único sentimento de muita vergonha. Isso pois o eterno-jurado-de-realities teve coragem de publicar, ao lado de seu pet – tão constrangido quanto a gente assistindo – que está em busca de pessoas para formarem um grupo, seja para uma girl ou boyband. O vídeo entra em território altamente vergonhoso e preconceituoso quando Simon fala em concorrer com "a dominação mundial do kpop", criando assim o que ele, sem nenhuma cerimônia, denomina UK POP. Sim você leu certo, um britânico conhecido por ter criado uma das boybands ocidentais mais famosas de todos os tempos, o One Direction, além de figura central em programas extremamente populares como American Idol, XFactor e Britain's Got Talent – praticamente todos os realities musicais existentes -, achou de bom tom cunhar um termo sobre algo que essencialmente sempre existiu.


Isso seria o suficiente para gerar críticas por todos os lados – exatamente o que aconteceu – porém a situação ficou ainda mais triste e clara, quando horas antes, o BRIT Awards, uma das maiores premiações de música do Reino Unido, anunciou grandes modificações nas categorias de votações do evento. A maior delas é a retirada da categoria Melhor Grupo Internacional, onde obviamente todos os grupos de kpop entrariam. Em um ano onde BTS esgotou Wembley, cuja capacidade é de 90 mil pessoas, não apenas uma mas duas vezes, além de ter conseguido o #1 lugar com Map of The Soul: Persona nas paradas e vários grupos fizeram shows lotados no país (Monsta X, NCT 127, GOT7, ATEEZ, etc). O BRITs não apenas extinguiu a categoria, como deixou claro que focaria em artistas britânicos apenas. O brexit nunca fez tanto sentido (e o gatekeeping também).

BTS em Wembley (reprodução/Big Hit)

Como alguém que mora na Inglaterra há mais de quatro anos e acompanha praticamente todos os realities musicais há mais de uma década, posso dizer que estamos diante de mais um caso "desapontada mas jamais surpresa". O "império" de Simon vem em queda livre desde que One Direction se separou em 2015. Além do claro descontentamento dos ex-integrantes com o processo criativo e direcionamento dos discos, houve também conflito entre Simon e as Little Mix, que também tinham carreiras administradas pela SYCO, companhia criada pelo empresário. No fim de 2018 o grupo finalmente conseguiu se libertar do contrato com a firma de Simon. O irônico ao percebermos o descontentamento dos artistas com contratos ruins e falta de liberdade criativa e pessoal é a constante utilização desses mesmos problemas para destruir o kpop e suas "fábricas de idols". Aqui vemos claramente que não estamos diante de um problema do kpop, e sim da indústria do entretenimento como um todo. É o capitalismo no seu pior e colocar isso na conta de uma única indústria não é somente irresponsável como também reforça preconceitos e estigmas.

Simon não apenas foi incapaz de replicar o sucesso de One Direction – que, para quem acompanhou XFactor na época, sabe que nem foi ele quem montou o grupo. Nicole Sherzinger (Pussycat Dolls) teve a visão ali – como atualmente acumula fracassos de audiência em seus programas. O XFactor UK era o programa mais assistido da Inglaterra em seu tempo de ouro, responsável por fazer nomes famosos como Leona Lewis, Cher Lloyd, Olly Murs, 1D, Alexandra Burke, JLS e James Arthur despontarem no mercado fonográfico. De lá pra cá a audiência foi cada vez diminuindo mais e hoje ninguém que aparece no programa faz sucesso. A última tentativa desesperada de Simon foi a criação do X Factor Celebrity, com subcelebridades competindo no programa. Além de qualidade infinitamente inferior, o programa não funcionou com o público britânico. É compreensível o desespero de Simon, que por mais de uma década criou uma imagem de O JURADO de realities musicais e se tornou uma figura muito popular pelas suas opiniões negativas e polêmicas (na maioria das vezes bastante grosseiras). Vivemos em tempos diferentes e o que antes funcionava, todo seu personagem e mise-en-scène que ele fazia em cada show, se tornaram sinônimo de humilhação e mau gosto.

Lembro no início de 2018, logo quando Love Yourself: Tear tinha saído, de ir até a HMV, a maior rede de lojas de discos do país – que, junto com outras empresas, fechou várias lojas por falência, outro sinal do Brexit – e perguntar se eles tinham o álbum. Ninguém sabia direito quem era BTS e tinham um entendimento muito superficial de kpop. Com o sucesso do disco, e o lançamento de MOTS, tudo mudou; a loja abriu uma seção só com discos de BTS em suas mais variadas versões. Agora no fim de 2019 a expansão foi ainda maior, com uma seção inteira dedicada ao kpop, incluindo vários grupos e solistas, além de pôsteres de BT21 (personagens criados por BTS), canecas e biografias do grupo. Esse crescimento incomoda muito quem não está disposto a entender a força do pop coreano. Entramos num looping eterno das mesmas meia dúzia de comentários xenofóbicos que repetem comportamentos que eu, você e todo mundo que gosta de kpop, está cansado de ler. Simon é a versão famosa e rica do comentarista de portal que escreve textão sobre algo que não conhece pois mexe com o status quo. Para pessoas como Simon é fácil replicar o sucesso de BTS, pois tudo é igual, todas as músicas são ruins e semana que vem outro grupo surgirá. Eu poderia citar a série de equívocos que envolve toda essa narrativa claramente criada para gerar caos e buzz mas irei apenas observar atentamente como essa ideia "inovadora" se desenrolará. Talvez Simon um dia entenda que o que ele precisa replicar não é um novo BTS e sim uma base de fãs tão interessada e engajada quanto as Armys. E para isso ele precisa de talento, treino, carisma, dedicação e alinhamento dos planetas. Boa noite e boa sorte Simon…

Sobre a autora

Camila Monteiro é jornalista e estudante de doutorado em música, mídia e fandoms. Ama cultura pop e é muito fã de Bangtan. Sua vida se divide em antes e depois que ela viu Park Jimin na sua frente.

Sobre o blog

Nesse espaço discutiremos o Universo Kpopper: fandoms, bandas, debuts, disbands, MVs, álbuns, tours, coreografias, Coréia e tudo que o K-Pop nos oferece. Entre visuals, rappers e vocalistas, ultimates e bias wrecker estabelecido(a)s, vamos refletir sobre as diferentes gerações do pop coreano, a influência na moda, beleza, cultura e como o K-pop muda a vida das pessoas.

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