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Rewind: SUNMI

Camila Monteiro

26/08/2019 18h04

Hoje é feriado aqui na Inglaterra (um dos últimos bank holidays do ano, triste) e ao acordar resolvi escutar Wonder Girls. Passei a manhã inteira revendo os vídeos, ouvindo as músicas e pensando, mais uma vez, no porquê de tantos grupos bons terem uma vida tão curta. É um misto de incompetência da empresa com vontade do artista de trilhar novos caminhos. E eu sou completamente a favor de ver os idols donos das suas próprias carreiras, produzindo, escrevendo, criando o conteúdo que eles sempre desejaram, e por essa razão a existência da Sunmi nesse universo por vezes tão cruel, é uma luz nesse infinito túnel que é a indústria do entretenimento.

Para entender melhor o surgimento da idol Lee Sunmi, é necessário jogar Wonder Girls no youtube e deixar o algoritmo te levar por todos os caminhos possíveis. O grupo teve diversas formações, entre elas a inicial com Sunmi e Hyuna, a saída repentina de Hyuna, entrada de Yubin e Hyelim e a saída e retorno da própria Sunmi. Toda essa confusão e entra e sai de membros parece receita para o desastre, mas a verdade é que não impediu em absolutamente nada o enorme sucesso que o grupo fez, sendo um dos maiores expoentes da Segunda Geração do kpop. Sunmi ficou 4 anos no grupo antes de sair pela primeira vez, em 2010, para acabar seus estudos. Parece algo bizarro para muita gente ver uma celebridade fazendo sucesso decidir pausar a carreira abruptamente para voltar a estudar, mas foi exatamente isso que Lee Sunmi fez. Três anos depois, em 2013, ela voltou aos palcos, mas dessa vez sozinha, e é aqui que tudo começa a ficar mais interessante.

Sunmi voltou, ainda pela JYP – mesma gravadora das WG – e lançou seu primeiro disco solo, o Full Moon. O primeiro single do álbum foi 24 hours e, como podemos ver, é um pop diferenciado. E a diferença é a própria Sunmi. Ela canta, dança, é uma exímia performer e não tem nenhuma música ruim. As coreografias são particularmente muito memoráveis e ajudam na disseminação da música, afinal, estamos falando de kpop. O bate cabelo de Sunmi não é qualquer bate cabelo, existe uma sofisticação, uma mistura de ritmos, breaks, arranjos e principalmente conceitos.

A própria Full Moon, num tom bastante vampiresco, com Sunmi no meio da neve, num sofá de veludo vermelho, no sotão, dançando e cantando eh eh eh eh em parceria com a rapper Lena Park é um tom bem distinto do que as Wonder Girls apresentavam. No grupo existia uma forte narrativa retrô, remetendo a várias décadas anteriores, enquanto sozinha Sunmi parece atualizar absolutamente tudo que ela faz. Toda vez que vejo esse MV penso que foi uma excelente inspiração para uma das maiores obras das Red Velvet, o Perfect Velvet. Essa linha "olhe para mim, vou te matar e você vai amar" é um branding forte da Sunmi que só evoluiu com o tempo.

Senti necessidade de colocar o vídeo acima pois Sunmi ao vivo é sempre válido e, mais do que isso, temos Jackson Wang (GOT7) no início da sua carreira como idol, tendo que segurar a barra que é dividir os holofotes com Lee Sunmi.

Se o início da carreira solo foi interessante e fez as pessoas prestarem atenção em Sunmi, tudo ficou ainda melhor quando ela saiu da JYP, após o disband das Wonder Girls em 2017, entrou na Makeus Entertainment e basicamente tomou praticamente todo o controle da própria carreira. Eu diria que podemos dividir a carreira dela até então como antes e depois da JYP. Antes ela surgiu como idol, fez sucesso estrondoso na Ásia e até mesmo mundial (eu não sabia, mas as Wonder Girls fizeram uma tour junto com os Jonas Brothers. Achei momentos.), teve um excelente início de carreira, o que com certeza colaborou para a saída dela em busca de liberdade artística.

E aí entra a fase Gashina, também conhecida como o grande hit da carreira dela até então.

Gashina foi meu primeiro contato com Sunmi e posso falar com tranquilidade que desde então o meu amor por todos os trabalhos dela só cresceram e se disseminaram por aí (eu prego com frequência a palavra de Lee Sunmi). Lançada em 2017 e escrita pela cantora em parceria com Teddy Park, a música foi um sucesso de público, crítica, ficou eternamente nos charts, ganhou prêmios importantes e abrilhantou as premiações de fim de ano. Com uma coreografia nada menos que icônica – levantando a mão para fazer a arminha e mexer o pescoço enquanto digito com a outra – Sunmi entregou um hit troll. Sim, Gashina é uma música bastante irônica, algo que virou marca dessa fase dela, onde as letras saem do "sou louca por você" e viram "você é louco, eu sou maravilhosa, melhore".  A cena dela navegando num mar de flores dentro de uma banheira dizendo que superou o romance falido é provavelmente top 5 melhores momentos do kpop.

Isso que eu nem entrei no mérito das roupas que ela usa pois poderia fazer um post só com os looks incríveis jogados na nossa cara nesses 4 minutos. E como Sunmi entende do craft e sabe que para premiação de fim de ano é preciso ter um certo impacto, ela fez parceria com ninguém menos que Lee Taemin. Não só Taemin participou de Gashina como ela participou de Move. Dois grandes hits, de dois idols icônicos que fizeram parte de grupos seminais para o kpop. O legítimo encontro de lendas vivas (e eu não estou exagerando, veja você com seus próprios olhos):

Se em Full Moon Sunmi ainda não tinha nenhum poder sobre a criação e produção de suas próprias músicas, em Warning, seu segundo disco, lançado em 2018, ela é quem mandou no campo. Das sete músicas do disco, incluindo os singles Gashina, Heroine e Siren, Sunmi escreveu quatro sozinha (Addict, Siren, Curve e Black Pearl) e as outras três (Gashina, Heroine e Secret Tape) em parceria com outros produtores. Além de escrever ela também participou da composição de todas as músicas e de alguns arranjos. Em uma indústria frequentemente acusada de não ter artistas "de verdade" (podemos entrar numa discussão eterna sobre isso, pois o que, afinal de contas é ser artista de verdade??), Sunmi canta, dança, escreve, produz, compõe, tudo isso enquanto faz tour pelo mundo e tuita verdades inconvenientes (o twitter dela é maravilhoso).

Mesmo não sendo essencial, o sentimento é outro quando estamos diante de um trabalho que tem a mão do artista do início ao fim, em todos os departamentos. E por isso, Warning é tão importante. Sunmi traz ritmos diferentes, produções pouco vistas no kpop e letras fortes, por vezes empoderadoras e por outras difíceis de serem escutadas, mas necessárias (relacionamentos tóxicos, falta de amor próprio, etc).

Tanto Heroine quanto Siren retratam esses relacionamentos, abusivos, difíceis, de forma conceitual, com mais banheiras – Sunmi curte uma banheira – cores de Almodóvar, coreografias marcantes, letras que ficam – GET AWAY OUT OF MY FACE LALALALA, sereismos e mais looks que qualquer blogueira em Semana de Moda sentiria inveja.

Mas foi em seu último lançamento, Noir, que Sunmi reuniu todas as melhores características da carreira solo dela até então. Filmado em parte como se ela estivesse dentro do instagram, pedindo likes e inscritos, Noir é uma enorme crítica a cultura atual que vivemos, a constante necessidade de fazer sucesso na internet, de ganhar likes e fama e mesmo assim estar imerso em ansiedades, depressões e tristezas cotidianas. Noir é arte do início ao fim, pelo conceito, cenografia, paleta de cores, produção, timing e pela divulgação da própria Sunmi nas redes sociais. Dedos cortados, likes em forma de coração que ela toma como se fossem comprimidos para ansiedade, tudo faz muito sentido e dialoga com praticamente todas as gerações que habitam esse planeta em 2019, um ano tão difícil.

Depois de Noir, a expectativa para o próximo lançamento de Sunmi é enorme, e ela não decepcionou com o teaser de LALALAY, que será lançada amanhã. Nele, a cantora sai de dentro de uma mala que está no meio de uma sala e nos olha como quem diz "boa sorte". Toda vez que eu vejo um trabalho novo de Lee Sunmi eu fico levemente com medo – tudo tem um tom meio tragicômico – e extremamente satisfeita com a capacidade artística que ela tem, de fazer coisas simples se tornarem grandes momentos, seja pelo olhar, pelo gesto da coreografia ou pela letra da canção.

Lee Sunmi é uma grande artista que já construiu todo esse brilhante caminho e tem apenas 27 anos. Nesse momento eu digito sorrindo ao pensar no que vem pela frente, e em como basta dar espaço para as mulheres mostrarem o talento que elas têm. Seja escrevendo sobre relacionamentos, dançando no meio de uma lanchonete ou tacando fogo em carros.

Sobre a autora

Camila Monteiro é jornalista e estudante de doutorado em música, mídia e fandoms. Ama cultura pop e é muito fã de Bangtan. Sua vida se divide em antes e depois que ela viu Park Jimin na sua frente.

Sobre o blog

Nesse espaço discutiremos o Universo Kpopper: fandoms, bandas, debuts, disbands, MVs, álbuns, tours, coreografias, Coréia e tudo que o K-Pop nos oferece. Entre visuals, rappers e vocalistas, ultimates e bias wrecker estabelecido(a)s, vamos refletir sobre as diferentes gerações do pop coreano, a influência na moda, beleza, cultura e como o K-pop muda a vida das pessoas.