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Especial: 1 ano de Love Yourself Tear, um dos melhores álbums de BTS

Camila Monteiro

18/05/2019 20h00

Hoje faz 1 ano que Love Yourself: Tear foi lançado e eu pensei muito como eu escreveria sobre um disco que tem um significado tão importante para mim. Tear marcou a entrada não somente de BTS na minha vida mas também do k-pop, da cultura coreana, da expansão do meu interesse musical – que sempre foi enorme, afinal de contas trabalho com isso há mais de 10 anos – e principalmente da comprovação, aqui bastante pessoal, de que apesar de piegas e levemente cafona, a música ultrapassa barreiras culturais e é capaz de mudar as nossas vidas.

Arte do disco Love Yourself: Tear (Reprodução/Big Hit)

Dentro da carreira de BTS, Tear se encontra ao lado de Wings e Dark & Wild como pontos importantes na trajetória do grupo, trazendo dores, dificuldades e anseios, cada um em um período diferente de crescimento dos membros, tanto na fama quanto pessoalmente. Se Dark & Wild é a obra subestimada e Wings a obra-prima de Bangtan, Tear é uma mistura de ambos. O álbum não é tão grandioso quanto Wings, e é bem mais sofisticado do que D&W. A dor aqui já não é mais uma revolta de adolescência e trabalha com os demônios internos de forma menos caricata e mais metafórica. O amor falso não é necessariamente com o outro, a singularidade é questionada, as verdades não ditas também. Ao fim de tudo, lágrimas. Love Yourself Tear é um disco que merece ser escutado em ordem pois nos leva a lugares e sentimentos diferentes nos momentos corretos.

Singularity foi um dos primeiros MVs que vi de BTS e até hoje é um dos meus preferidos. A música permite que Taehyung (V) mostre o que sua voz tem de melhor – o tom -, combinada com uma coreografia que a princípio parece não combinar com a música, mas que é interpretada de uma forma tão bela e única – o jeito Tae de dançar – que nos leva a uma quase sessão de hipnose. A letra, escrita em menos de três horas por Kim Namjoon (RM), é uma das mais bonitas e tristes que ele já fez. I buried my voice for you (Eu enterrei minha voz por você); Have I lost myself or have I gained you? (Teria eu me perdido ou te ganhando?) dão o tom de perda e vazio da canção. A música em si foi inspirada em D'Angelo e é um r&b suave, sofisticado e fácil de ser escutado. Parece inofensivo até traduzirmos a letra e percebermos que Singularity dita o tom soturno de Tear.

Se Singularity nos avisa que estamos  diante de uma jornada mais complexa e densa, Fake Love é o lead single necessário para fazer Tear ser a força que é na discografia do grupo. A música é um ponto fora da curva e um dos meus arranjos e produções preferidas, o que diz muito se considerarmos o histórico de BTS. O refrão explosivo, as roupas meio emo, meio rock britânico, a exaustão desse amor que trabalha com medos e reflexos; tudo funciona. A letra é outro destaque e mantém os sentidos múltiplos de amor e dor que o disco possui: "I grew a flower that couldn't bloom. In a dream that can't come true." (Eu plantei uma flor que não desabrochou em um sonho que não pode se realizar). Sempre terei uma conexão especial com Fake Love por ter sido a primeira música que me conquistou e percebo que essa foi uma fase crucial na carreira de Bangtan pois foi quando o grupo conquistou mais exposição internacional com debut no Billboard Music Awards, fazendo assim com que uma leva de novos fãs prestassem atenção neles. Por todas essas razões, Fake Love é um marco para BTS.

Love Yourself Tear é um álbum que nos destrói logo no começo para depois nos dar a mão e mostrar que as coisas podem ser divertidas. Até chegarmos nessa fase – ela chega muito bem – passamos por outra grande canção do grupo, e a minha balada preferida já feita por eles. Uma decisão bastante difícil levando em consideração que House of Cards existe. Porém a letra de The Truth Untold, a dor com que Jin, Jungkook, Jimin e Taehyung cantam (ao vivo é de ficar em posição fetal), o fato de ter sido produzida por Steve Aoki (!!!) e ser totalmente diferente de tudo que poderíamos esperar dessa parceria, fazem a gente transcender ao escutar. Novamente temos a dor como tema central, aqui explorada de forma crua e cruel. É a realização de que está tudo errado mas que mesmo assim estamos presos naquilo. I still want you.

Após uma sequência devastadora, Love Yourself Tear finalmente nos abraça e diz: toma aqui um pouco de alegria, com 3 ótimos jams completamente diferentes um do outro, mostrando a versatilidade que BTS possui em apenas um álbum. 134340 já possui um título inteligente e que diz muito sobre o tema do álbum. Esse é o número do asteróide que o ex-planeta Plutão virou, e a música trabalha sobre amar alguém que não está mais lá. Isso é Kim Namjoon em ação. Outro ponto fora da curva, é bastante difícil definir o estilo de 134340; é um k-groovy experimental, o pop possível em um asteróide cujo nome é um número.

BTS em photoshoot de LY Tear (reprodução/Big Hit)

Em seguida temos duas das minhas grandes favoritas do disco – e infelizmente esquecidas – Paradise e Love Maze. Paradise foi feita em parceria com o excelente cantor e compositor britânico MNEK, e a letra, mais uma vez, é destaque por lembrar que "It's okay to stop. It's okay not to have a dream as long as you have moments of happiness."  É okay parar, é okay não ter sonhos, o importante é ser feliz. Essa é a mensagem principal da Era Love Yourself e é perfeitamente sintetizada aqui num Paraíso onde temos uma das melhores transições da rap line nos versos de Yoongi (Suga) e Hoseok (J-Hope). Assim como Paradise, Love Maze é claramente uma música pop mas com um arranjo tão interessante que nos confude, nos leva para outros caminhos com uma batida uptempo que não sai da cabeça e aqui Jimin e Hoseok brilham, o primeiro com um tom de voz marcante do início ao fim e o segundo com variações no flow do rap que deixam qualquer um impressionado.

A segunda metade do disco poderia ser subdivida em músicas dedicadas aos fãs e músicas para dançar pela casa e bater cabelo por aí. Depois de tantos percalços para chegar até aqui, Magic Shop entrou no hall de canções para as Armys (o nome do fandom de BTS) e é o momento de cantar junto com o grupo: enquanto eles entoam SO SHOW ME, nós respondemos I'LL SHOW YOU, e esse bonding define muito o sucesso e relação entre Bangtan e suas fãs. O valor é ainda maior quando levamos em consideração que Jungkook, maknae do grupo, ajudou na composição. É um momento full circle, feliz, mágico, que pra quem vê de fora pode ser cafona mas para quem participa é renovador e necessário para os dias atuais.

Já Airplane Pt 2 (vídeo acima) é BTS mostrando que eles não iam ficam de fora da trend latinidades. Com uma coreografia marcante, uma letra que mostra eles rodando o mundo nessa dura e doce vida que é ser Idol, Airplane nos leva a Paris, Hong Kong, Londres e finalmente Brasil. A música ganhou MV na sua versão japonesa e foi bastante divulgada pelo grupo em programas de tv e premiações (a performance do MAMA é inesquecível). Ambas as canções refletem a vida dos membros como idols, o carinho pelas fãs e a trajetória deles ocupando espaços pelo mundo afora.

Anpanman e So What fazem parte da ala pop perfection do álbum apesar de serem completamente diferentes. Anpanman é um hip hop oitentista going kpop, com os membros se divertindo muito numa versão reimaginada – e realista – de super heróis.. So What é a música fim de festa, é o EDM kpopper em ação. E a letra reflete esse sentimento de diversão, fim de álbum, grito que estava preso na garganta: We are young, wild and free. Somos jovens, selvagens e livres. Depois de tanta dor, perda e reflexão nada mais justo do que SO WHAT???

Mas Tear puxa o nosso tapete e vira a nossa vida de ponta cabeça com a última música do álbum e possivelmente melhor  já feita pela rap line. Tear é a síntese de tudo que vimos até aqui e uma lição de que a vida é feita de altos e baixos, assim como o álbum. Quando a gente pensa que tá tudo bem, Hoseok, Namjoon e Yoongi nos mostram que não é bem assim, da forma mais agressiva e sentida possível. Eu poderia – e farei isso num futuro – falar sobre a rap line de BTS por muitos parágrafos mas aqui é visível a forma como os três se complementam, entregam versos de forma totalmente diferente um do outro, se entendem, fazem transições com uma fluidez invejável e escrevem suas próprias letras. Ou seja, são artistas. Tear é o único fim possível aqui.

Eu sabia que esse post ficaria grande e mesmo assim ainda sinto que não fiz justiça para essa obra tão valorosa para mim. Love Yourself Tear me fez conectar todos os pontos da minha vida, como jornalista, pesquisadora e fã. E essa ajuda ao me fazer reescrever minha própria jornada é algo que lembrarei para sempre. A música tem essa força.

Sobre a autora

Camila Monteiro é jornalista e estudante de doutorado em música, mídia e fandoms. Ama cultura pop e é muito fã de Bangtan. Sua vida se divide em antes e depois que ela viu Park Jimin na sua frente.

Sobre o blog

Nesse espaço discutiremos o Universo Kpopper: fandoms, bandas, debuts, disbands, MVs, álbuns, tours, coreografias, Coréia e tudo que o K-Pop nos oferece. Entre visuals, rappers e vocalistas, ultimates e bias wrecker estabelecido(a)s, vamos refletir sobre as diferentes gerações do pop coreano, a influência na moda, beleza, cultura e como o K-pop muda a vida das pessoas.